
Pelo menos, a modernidade dos nossos pais lhes oferecia o acalento da permanência. A certeza era a marcha do progresso, que hora ou outra salvaria a todos. Só uma questão de tempo. A tecnologia ia trazer uma resposta, ia curar, ia fazer a gente viver melhor, transportar a gente com mais eficiência e rapidez.
Mas nada disso aconteceu. Cá estamos nós afogados nas incertezas da impermanência. Tudo acelerou demais e as respostas não vieram. Os adultos que vamos nos tornando se contentam em tentar, incessantemente, fincar bases numa gelatina hipersônica. Só sabemos que tudo vai continuar a mudar. E rápido. Não sabemos bem pra onde. Prever é um exercício ainda mais enlouquecedor.
Me parece que temos nos dividido entre dois tipos de expediente pra lidar com esse escancaramento.
O primeiro é a escolha do mergulho profundo nessa pós-modernidade. É continuar agarrando na cauda da tecnologia, só que não mais esperando prosperidade coletiva, mas só a sensação. O desbunde da tecnologia pela tecnologia. O orgasmo dos sentidos. Mais mega pixels. O HD do HD. Surround mais imersivo. Conectividade frenética. Não importa se o que vc está fazendo é importante; importante fica se vc compartilha com todo o mundo. Um chiste novo-rico, de quem lá se vai viver o sobre-humano (mas sem sair do sofá).
A segunda escolha parece a busca, mesmo que inglória, por alguma outra fonte permanência qualquer. Uma dessas é o motif da vida outdoor. O dicurso do ‘é lá fora que somos felizes’. Que tal desligar da civilização e ligar na natureza? – assim fincamos nosso gozo numa fonte certa. Que o homem não mexe e não muda. Sensações não pré-sintetizadas. Submeter o corpo à matéria prima autêntica da sensação: as forças do mar, as alturas, a umidade, as inclinações, as acelerações. Contusões e machudados siameses das endorfinas.
No Brasil, e no verão, a natureza nos presenteia com mais um suspiro de permanência. Verdade que, ano a ano, um suspiro sucessivamente menor. Mas graças a Deus, uma razão pra sair da cama. Pra perseguir algo real e concreto. Assim, ao menos sazonalmente, podemos parar de nos sentir obrigados a achar a nossa civilização algo bacana só pra não enlouquecer.
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